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O coração bate. O fígado apanha…vamos cuidar dele também? | VEJA.com

Fígado

Não adianta apenas cuidarmos do coração. (iStock/Getty Images)

Há poucos dias, o pesquisador Eric Stahl publicou um artigo intitulado “Nonalcoholic Fatty Liver Disease and the Heart”, em português “Doença Hepática Gordurosa Não Alcoólica e o Coração”, em um periódico científico de alto impacto na literatura médica, o Journal of The American College of Cardiology. Fui agraciado com este artigo por um colega médico de privilegiada inteligência e raciocínio e, acredito que, como uma forma de reconhecimento ao que eu digo há anos: “O coração tem o glamour, mas o fígado é a usina do corpo humano!”

Na verdade, o que o artigo mencionado fez foi uma excelente revisão da literatura médica analisando as relações, muito claras, entre a doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA) e as doenças cardiovasculares, estas últimas conhecidas há anos, entre as que mais matam no mundo.

Doença hepática gordurosa não alcoólica

A DHGNA nada mais é do que o acúmulo de gordura no fígado que acaba formando um círculo evolutivo – com a forma conhecida como Esteato hepatite não alcoólica (EHNA) – que além da gordura possui inflamação. Esta pode evoluir para fibrose, mais tardiamente para cirrose e com maior chance de desenvolver hepatocarcinoma (um tipo de câncer primário do fígado). Atualmente, estima-se que a prevalência da DHGNA seja de 25% a 30% da população mundial.

Apenas para ilustrar, a cirrose como consequência da EHNA, já é a segunda causa de inclusão em fila de espera para transplante de fígado nos Estados Unidos, ficando apenas atrás da cirrose causada pelo vírus da hepatite C. Todavia, com a disponibilidade recente de medicamentos que curam a hepatite C, a EHNA se tornará, futuramente, a doença mais frequente a indicar transplante de fígado no mundo.

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Coração e fígado

Mas na verdade, estamos aqui para falar sobre o coração! Este órgão que bate incansavelmente no peito, que nos leva as emoções do amor e da angústia e, muitas vezes, a morte súbita, nos impõe medo e respeito. Enquanto isso, o fígado escondido atrás das costelas e imóvel, só nos faz lembrar a boca amarga e a dor de cabeça, que na quase totalidade das vezes, não é sua culpa!

Este trabalho mostra a forte relação entre o acúmulo de gordura no fígado e as doenças cardiovasculares, especialmente, a aterosclerose (placas de gordura nas artérias e seu endurecimento), as arritmias cardíacas, bem como o maior risco de mortalidade por doenças cardiovasculares nos casos de DHGNA mais avançada.

Por que isto ocorre?

O fígado doente tem um forte papel no processo que desenvolve aterosclerose, nos fatores inflamatórios relacionados ao sobrepeso e obesidade, tal como na alteração do metabolismo dos lipídeos (colesterol e triglicérides), aumentando o colesterol “ruim” e reduzindo o “bom”. Além disso, aumenta a resistência à insulina e se associa ao aparecimento da diabetes tipo 2. Isso tudo aumenta os riscos de doenças cardiovasculares.

Assim, me parece ficar fácil compreender que não adianta apenas cuidarmos do coração, mas passarmos a ter a mesma preocupação com o fígado quieto e escondido no lugar dele.

Para agravar ainda mais um pouco, o coração dói, bate de forma errada, nos leva a cansaços excessivos e nos alerta! Já o fígado, apanha quieto, sem dar qualquer sinal até quase o seu nocaute.

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Prevenção dupla

Mas também temos boas notícias…

A prevenção e o tratamento de ambas as enfermidades (cardíacas e hepáticas) aqui mencionadas se sobrepõem:  modificação no estilo de vida, perda de peso, dieta adequada, atividade física e suspensão dos fatores agravantes a qualquer uma delas, já amplamente conhecidos.

Outra boa notícia é a possibilidade futura de medicações que possam tratar a gordura do fígado (ácido obeticólico, elafibranor, cenicriviroc, por exemplo), mas ainda em estudos para sua comprovação.

Enquanto isso, sem querer tirar o glamour do coração, nos resta lembrar que, quem quer um coração mais saudável, deve se ater a existência do fígado e a ele dedicar muita atenção e cuidado!

 

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